"Para mim a arte não aconteceu. Sempre foi. Sempre fui. Nada disso. Não posso ser egoísta. Nunca estive sozinho. Na verdade, em termos de arte, sempre fomos."

 
 
 

No ano em que nascemos, o mundo via Hitchcock, Vinícius de Moraes, John Lennon e Nelson Rodrigues cruzando a porta inevitável que encerra os anos. No dia em que nascemos, o mundo recordava que noventa e oito anos antes Monteiro Lobato também tinha começado a contar seus dias. No lugar em que nascemos, o mundo também presenteou a luz com o precursor do Movimento Modernista no Paraná: Newton Sampaio... Ainda que meu contato temporal com tais monstros tenha sido meramente simbólico, ainda que me sinta uma semente de arte plantada na aridez da província, consegui, em tempo, encharcar-me da inquietação daqueles que entendem a função política da garganta. Desde que minhas lembranças passaram a ser guardadas na caixa preta da memória, sou um apaixonado por espetáculos, embora minhas referências primeiras fossem os pobres circos que de quando em quando visitavam Tomazina. O palco, a cortina, o figurino, a música, a luz, as cores, o ritmo, todos os elementos da composição cênica sempre me foram objetos de encantamento e, de certa forma, já naquela época me faziam compreender o poder amplificador da palavra neles arraigado, provocando-me a reproduzir aquilo que assistia. Mais: provocando-me a criar meus próprios espetáculos, tecendo enredos, esculpindo personagens, e dividindo nossos amigos da rua sempre em dois grupos: o dos artistas cúmplices e o da plateia sedenta. Foi aí que comecei a me perceber como ser vivente, em minha essência de criador. Quando fomos introduzidos no universo dos que sabem ler, descobri que a parte mais interessante de minha cidade era a velha biblioteca pública, instalada precariamente num prédio onde também funcionavam um consultório médico para pobres e algum outro órgão da prefeitura, não me lembro direito, mas certamente mais ligado ao mofo da burocracia que à brisa da imaginação de uma criança. Nunca foi amena minha insistência em convencer Leandro a gastar nosso tempo em meio àquelas estantes escangalhadas. Em sua vida escolar, ele sempre foi alvo de olhares curiosos, pois desenhava bem, principalmente figuras humanas. Entretanto, com o passar dos anos, descobri que eu podia desenhar com palavras, e que, com esse tipo de traço, poderia construir almas e não apenas aqueles corpos vazios e inertes que ele vivia deixando nas folhas brancas. Essa descoberta clareou meus anseios criativos, e nós, que ainda nos reconhecíamos como a mesma pessoa, nos convencemos de que a literatura seria nossa grande ferramenta de expressão. Aos quatorze anos, o primeiro poema, inspirado na “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias; aos quinze, o primeiro esboço de texto dramático, que ainda mora nos meus arquivos e não tem data para ser do mundo, e também a primeira composição em prosa, reescrita uma dúzia de vezes e sepultada nalgum fundo de baú. O grande problema da opção por produzir literatura sempre foi a lentidão das reações do público, ou até a inexistência delas... Leandro passou a adolescência e juventude mergulhado em aventuras teatrais no ambiente escolar, na igreja e na comunidade, e ali: público garantido e respostas rápidas e claras. Nosso primeiro grande conflito. Eu querendo experimentar o dinamismo do voo de um pássaro, e ele, a segurança nos pés presos ao palco. Resolvemos, então, escrever uma obra nos moldes dos antigos folhetins: o trabalho de escritor solitário juntado à reação quase imediata de alguma plateia. Conforme eu ia arrematando os capítulos, Leandro abandonava-os à sorte de uma biblioteca escolar, enquanto interagia com os alunos leitores, tentando encontrar os caminhos, entender e mensurar o envolvimento deles com o texto. Para meu deleite e espanto, essa obra foi publicada três anos depois pela Secretaria da Cultura do Estado do Paraná, tornando real aquele sonho que qualquer autor de gavetas carrega em seu bornal: ter o primeiro livro impresso e distribuído ao público. Quando a publicação saiu, Leandro já cursava letras da universidade. E o livro tornou-se uma ferramenta singular para a divulgação da minha luta criativa no ambiente acadêmico, algo como uma seta em neon intermitente indicando meu endereço... Ele, extasiado com o estudo da literatura, e eu, ansioso por disseminar minha poesia aos quatro ventos: Leandro passou a estender varais com meus escritos no saguão da faculdade, a distribuir meus poemas em pequenos papéis aos que encontrava pelos corredores, a ousar invadir aulas para recitar meus versos, a imprimir livretos custeados por amigos, vendendo-os a moedas de nada, presenteando um aqui e outro ali, ou abandonando-os pelos bancos e cantos na esperança de que encontrassem bons leitores...

 

Minha poesia precisava chegar às pessoa de qualquer maneira, pois eu andava mendigando pistas vindas dos corações-leitores, dos corações-plateia. Nossa loucura era tanta, que ele chegou a realizar recitais e intervenções em palestras e seminários, sempre se valendo de elementos cênicos para evidenciar a face viva da palavra escrita. Nossa sina continuava: eu com a solidão da máquina de escrever, ele com a força envolvente do palco. Anos depois, tive um conto selecionado num concurso que leva o nome do nosso conterrâneo Newton Sampaio: mais uma publicação, graças a Deus! Mas o tempo foi passando, e cheguei aos trinta mais atormentado que antes. Por outro motivo, porém. Já não era a busca por entender minha própria poesia que me angustiava. Era o fato de ainda não ter desvendado quem eu era como criador. Eu estava preso a um cidadão de carne e osso, vivendo os dias dele sem sê-lo... Quando "Mulheres no vazio da praça" foi publicado pela primeira vez, levou na capa o nome do Leandro. As outras publicações já haviam sido daquela forma. Desta vez, porém, eu quis reclamar meus direitos. Definitivamente, Leandro e eu éramos seres distintos! Utilizamo-nos dos mesmos recursos corporais e intelectuais. Mas não somos um só. Foi nosso segundo grande conflito. Este imensamente maior que o primeiro. Uma solução era urgente! A briga foi feia, parecia interminável, mas surtiu efeito e, enfim, fui entendido como ser existente, fui identificado e batizado de A. Zhoras. Não foi simples fazer Leandro entender que eu não havia nascido naquele momento, apenas estava recebendo um registro. Era uma criança desaparecida que nunca teve documento e finalmente conseguia emancipar-se. Minha primeira exigência foi uma nova publicação do "Mulheres". Depois veio o "Varal sem lei", uma compilação daquele trabalho poético que tínhamos realizado nos anos de universidade e experimentações posteriores junto ao público. Há pouco, Leandro resolveu ingressar no curso de teatro, e eu me aproveitei dos amigos que ele fez por lá para finalizar mais uma obra, que vinha macerando há mais de uma década: "Os gatos do balaio". Durante os ensaios para uma leitura dramática, a obra encontrou sua forma definitiva. E agora a luta segue. Somos dois, um que grita, outro que registra os gritos como pode... Lembrar das tantas aventuras e desventuras vividas ao longo dos anos, seguindo uma trilha que nem sei exatamente para onde leva, me dá um prazer enorme. Tenho consciência, contudo, de que, apesar de já rumar aos quarenta anos, tenho poucas obras concluídas e publicadas. É muita vontade de gritar, mas pouco barulho feito. É que existe uma espécie de ferrugem chamada autocrítica que domina as dobradiças dos meus armários. E assim tudo se acumula. Meus arquivos abarrotados estão mais para um estranho ferro velho de carcaças que nunca foram de ninguém. E, não bastasse a ferrugem, as traças da inquietação andam instaurando uma anarquia constante sobre minhas páginas, e, assim, só consigo produzir literatura a conta-gotas... Uma coisa, porém, já ficou clara: não produzo sozinho. Leandro é meu braço direito. Ele e aqueles que nos rodeiam. Tenho a sensação de que ainda sou um menino e continuo brincando de teatro na minha rua, dividindo meus amigos em artistas e plateia. A diferença é que agora minha rua é o mundo, e os amigos já nem posso contar.

A. Zhoras

[ desenvolvido pela agência do escritor ]