No ano de 2012, o escritor resolveu adotar o pseudônimo A. Zhoras, deixando de usar definitivamente seu nome de batismo para assinar suas obras.

 
 

Depois de alguns anos sem publicar, Leandro C. Muniz lançou o livro "Mulheres no vazio da praça" em 2011. Os anos de silêncio foram momento de retiro pessoal, de escuta da vida e dos próprios anseios artísticos, uma busca por compreender a que rumos sua literatura seguiria, uma redescoberta de si mesmo enquanto ser criador. O livro saiu da editora [em poucos exemplares] com o nome de batismo do escritor na capa, mas em meio a um conflito: Leandro tinha a sensação de que não era ele quem criava, que sua função era apenas escrever. A dimensão literária lhe parecia pertencer a outro ser, um ser essencialmente criador, feito de poesia e combinações linguísticas.

 

A partir de então, o escritor adotou também o hábito de travestir-se de personagens quando vai a público falar de sua atividade literária, um recurso didático para auxiliar na compreensão de algo que ele mesmo não considera fácil de se entender: "A. Zhoras é o meu eu verdadeiro. Um ser que existe apenas na minha intimidade, que se revela através da arte e das minhas emoções mais sinceras. Quando sou Leandro, sou o personagem que a sociedade moldou. Por isso venho travestido, para dizer que aqui não venho falar de mim, nãodesse eu que vocês podem conhecer. Mas quando estou disfarçado, tenho a oportunidade de revelar um eu que é proibido, que foi censurado, um eu que traz todas as minhas verdades", explica Leandro.

Foram muitas as reflexões na busca por compreender o próprio processo criativo. Mas era algo de uma complexidade ímpar, sobre o que o escritor não conseguia discorrer. Numa tentativa desesperada de por fim àquilo que já o incomodava bastante, Leandro decidiu-se por uma ruptura de identidade, para que as dimensões criador/serviçal fossem desvinculadas. Era preciso que ambos se desvencilhassem, já que não conseguiam nem podiam ser a mesma pessoa. Ao contrário, com o passar do tempo tornavam-se cada vez mais distintos e distantes. A criação de um pseudônimo foi a solução encontrada, ao menos provisoriamente, para sanar a questão. E assim nasceu A. Zhoras, que se tornou a assinatura oficial das criações literárias do artista.

 

O livro "Mulheres" recebeu nova edição para celebrar o pseudônimo, sendo publicado em 2012. E logo no prólogo, o próprio escritor explica, a seu modo, a novidade, que considerou um verdadeiro suicídio.

Suicidou-se, graças a Deus!

Apesar de os créditos desta obra indicarem que se trata da primeira edição, não acreditem. É uma mentira descarada, e muitos sabem disso. “Mulheres no vazio da praça” é o meu primeiro livro de contos, ensaiei quase uma década para publicar, e o fiz no início de 2011. Foi desde então que resolvi enlouquecer, porque aprendi que os loucos enxergam coisas para as quais os sóbrios são cegos. Houve uma rebelião interna na prisão do meu ser e, dentre tantas negociações comigo mesmo, decidi que aquele Leandro Muniz que vivia assinando meus escritos precisava ser esquecido. Foi num momento de delírio que encontrei uma verdade assustadora: Leandro Muniz suicidou-se lentamente ao longo dos anos, desde que o universo literário me fez entender o quanto é sério escrever. Produzir literatura é viver um sacerdócio, dizer um sim a cada nova inspiração, e carregá-la como cruz quando toda a emoção passar e só ficarem os papéis em branco e as dores nas costas. Leandro Muniz morreu e eu o sepultei sem nenhum pesar, pois eu tinha todo o trabalho de arrastar esses textos até o campo da beleza, e ele vinha somente para assiná-los. Mas quase sem vida, ele insistia em assiná-los. E eu permitia, pois não tinha loucura suficiente para perceber que existia, que comecei a existir justamente quando ele começou a se suicidar. Agora sou só eu, e posso assumir tranquilamente a autoria deste livro de contos e muitos outros que virão. Ele não vai mais me atormentar. Não vai assinar mais nada. Estas mulheres, estas praças, este vazio... todos meus! Só meus. E esta sim é a primeira edição de verdade.

[ desenvolvido pela agência do escritor ]