“Quinze minutos” é considerado um dos pontos altos da produção de Newton Sampaio. O conto foi publicado originalmente em Irmandade, de 1938, livro premiado pela Academia Brasileira de Letras.

 
 
 

Para falar verdade, a ruazinha é bem insignificante. Mas é simpática. Simpática, comprida, estreitíssima. É comprida e vai terminar nos fundos  de uma igreja muito velha. O que, aliás, não tem importância, porque,  desgraçadamente, eu não sei mais entrar em igrejas. Não sei entrar nas  igrejas nem pela porta grandiosa,  nem pela porta dos fundos. Por isso,  eu entro mas é no estabelecimento Élite,  muito embora o meu sangue seja  bem ordinário e provenha de um cabo da polícia  pernambucana que se  casou de supetão com a filha de uma quitandeira baiana muito  gorda. O  estabelecimento Élite, é campeão no gênero, põe saltinhos em cinco   minutos e meias-solas garantidas num simples quarto de hora. O freguês  entra,  esconde só as pernas no cubículo, dá o sapato pra o italiano  proprietário, o  qual distribui o serviço pra os brasileiros sapateiros.  Eu agora estou preso em  um dos cubículos, e fico espiando o movimento,  desde que não tenho um só jornal  vespertino cheio de grandes títulos  onde possa conhecer a mais recente cena de  sangue de qualquer subúrbio  abandonado. A meu lado, um homem de imensos bigodes  pitorescos recebe o  sapatão de cano alto, acha que o serviço não prestou, paga  só quatro  mil e quinhentos, vai embora pisando duro. Estamos em março (quer  dizer  que, até fins de junho, não precisarei voltar aqui), pergunto que  horas  são, me respondem que são duas horas e quinze.

Os  sapateiros brasileiros suam sem parar, o ambiente continua abafado,  cheirando a couro, a suor, a tinta. Todos os três cheiros são fortes e  nenhum deles me é agradável.

Presto atenção e concluo que o dono  do estabelecimento usa camisa preta. Sinto ganas de  dar um viva à Abssínia (só  para anarquizar a geografia) mas tenho medo  de ser posto na rua descalço e de  meia furada.

ilustração [Osvalter Urbinati]

Entra uma radiosa mocinha, que põe o embrulho em cima do balcão e dá instruções ao homem. Um dos artífices conhece a mocinha e diz: — “Como vai, sérrgipana?”, (abre o e e carrega no r). Ela sorri, olha pra mim não sei por que, me acha simpático. Eu lhe pergunto: — “Conhece o Tobias Barreto?" A mocinha fala:

— Em que time joga esse bicho? Dou uma bruta gargalhada, fico sério de uma hora pra outra, todos pensam que eu sou louco, mas eu não sou louco não. O que eu sou é um homem triste, desesperado, desesperadíssimo, porque minha mulher geme com pneumonia, meu garoto sofre com sarampo, meu sapato está cheio de buracos. Eu sou um homem desesperado, desesperadíssimo, que quer sair do cubículo, que está doente de amor pela mulher pneumônica, pelo filho sarampento, que não aguenta mais o calor, nem o estabelecimento Élite, nem a rua comprida e estreitíssima.

A sergipana foi embora, não sei nada do que se passou, todos estão agora me olhando, o italiano proprietário até me vem ajudar, mas eu não aceito o favor e enfio sozinho a botina concertada. Não digo até logo, piso a rua comprida.

A rua é comprida, vai dar no fundo de uma igreja muito velha, mas isso não tem importância porque eu não sei mais entrar nas igrejas. Nem pela porta gloriosa, nem pela porta dos fundos.

fonte [CANDIDO . Jornal da Biblioteca Pública do Paraná . Edição 26]

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