Em 2012, a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores publicou o livro "Newton Sampaio: médico escritor", como parte das comemorações referentes ao centenário de nascimento daquele que o título anuncia. A. Zhoras, por ser conterrâneo de Newton, foi convidado pelo organizador L. A. Fernandes Soares para compor a capa e fazer a apresentação da obra.

 
 
 

Aqueles olhos... Aqueles olhos, como posso dizer?, era instigante a maneira como me tocavam. Mas eu não compreendia, eu era apenas um guri, nem me lembro da idade, mas a meninice ainda morava inteira aqui dentro, espaçosa do jeito que é. Eram olhos pintados, reprodução de alguma fotografia, uma inscrição no canto da tela: Maria Sampaio, e eu, de tão tolo, sem saber que os artistas podem assinar suas obras, achando que se travava do nome daquele homem pintado, e por minha conta o chamava de Mário. Foi bem depois que descobri seu verdadeiro nome: Newton. Ele era o Newton Sampaio. E, mesmo com o tempo, o olhar ainda me abalava, e eu sem entender nada. Sabe quando a gente se apaixona pela primeira vez e não se dá conta? Simplesmente sente, gosta de sentir, entretanto desconhece a nomenclatura das sensações. Era eu ali diante daquela tela, que, por ironia da vida, depois de me ter seduzido, pediu-me socorro e sabia que eu não poderia negar. Esquecida no Centro Cultural de Tomazina, ao léu como objeto de encosto, bebendo toda a água que as goteiras conseguiam sugar, desmantelando-se injustamente, como que numa repetição da história literária do Newton (ignorado pela inteligência do Paraná por tantos anos), ela me pediu socorro. Implorou, na verdade. Já nem tinha o quadro de madeira, apenas o tecido pintado com tinta e bolor. Vivi um dilema: retirá-la da instituição de cultura que leva o nome do escritor e macular a intenção genuína daqueles que doaram a tela, ou deixá-la à mercê de ninguém, incorrendo no risco de transformar-se lentamente em nada?

livro publicado pela SOBRAMES em 2012

Não foi difícil decidir. Tirei-a de lá. Ainda que me acusassem de sacrílego, e eu fosse obrigado a me expurgar... Nada aconteceu. Como já dizia o boletim informativo das minhas previsões. O que está ao léu, não há leão que queira reclamar. Levei o Newton para a Casa da Cultura, de onde eu era coordenador. Senti-me como se o recebesse em meu próprio lar (de certa forma o era). Preparei um cantinho singelo, pobre, mas cheio de carinho, desses encontrados nas casas das vovós. Quis lhe dar muito mais. Fiz apenas o que minha mera posição de funcionário municipal permitiu. Quem detinha o poder parecia ter esquecido o Newton, e, até hoje as coisas não parecem ter mudado. Apesar de seu nome estar tatuado na fachada do Centro Cultural, somente os beirais apodrecidos o contemplam. Por quê? Com toda sua importância para a literatura, por que seus conterrâneos o ignoram quase completamente? Só descobri quem era ele por minha própria vontade. Sempre que se perguntava por ele, parcas informações é o que se podia esperar. Descaso? Sei lá. Newton, seus conterrâneos não te conhecem. Mas aquele olhar... preciso confessar, ainda me estremece a alma. Talvez porque não somos apenas irmãos de terra, ou porque fomos coroinhas do mesmo altar, ou porque pisamos as mesmas ruas mirando a lua num mesmo enquadramento de céu, ou porque lambemos o mesmo horizonte desejando saber o que havia detrás de tanta tortuosidade... Não por isso. Não apenas por isso. Os dias me fizeram entender toda sua angústia diante de um tempo que se esvai, e que não nos permite dormir direito se temos a palavra como arma. Acabamos morrendo mais depressa quando o mundo descobre que podemos ser imortais. Essa magia de manipular as letras como fossem barro para lhes dar qualquer forma, para forjar delas um canhão a combater este mundo estúpido, quem sabe uma flecha para atingir o cerne do homem e mudar tudo: a literatura é bela e bélica. O mundo teme a literatura, Newton! Por isso nos faz vítimas. Quer nos destruir a qualquer custo. Newton não foi apenas escritor, foi vulcão de uma só erupção. Intenso destemido eterno. Queria por fogo no mundo, não para destruir, mas purificar. É isso! Agora posso compreender claramente por que aqueles olhos me atormentavam apesar de toda sua serenidade. Havia fogo ali. Se os meus estavam obscuros, os deles brilhavam mais que tudo. Só precisei abandonar-me, deixar-me queimar, assistir de dentro o derretimento das minhas impurezas. Não que tenha me livrado de todas, mas agora conheço o procedimento de limpeza correto. Graças ao Newton! Graças a este que falou de uma província que ainda existe, da qual paradoxalmente faço parte, com seu verde desvirginado cheirando a terra chovida, com seu bucolismo íntegro e suas calamidades rodriguianas. E graças ao pulso incandescente impetuoso abortado de Newton, hoje me orgulho de ter nascido no mesmo berço do melhor contista do Paraná, título dado pelo também incandescente impetuoso mas bem-criado Dalton Trevisan. E agora? Eu deveria apresentar esta obra, concebida para traduzir o espírito do meu irmão de terra, com que dignidade? Não tenho nenhuma. Se servir, apresento o meu pesar, as minhas lástimas por ser a vida uma senhora tão intransigente, de quem não se consegue extorquir dez minutos a mais a alguém que nasceu para remexer as abóboras da carroça. Pudera Newton ter vivido mais! Se com vinte e poucos fez tudo o que fez, imagino se ele não tivesse aberto a porta para a maldita moléstia. Se servir, tenho meus dedos impregnados mais de paixão pelas palavras que de técnica. Se servir, tenho meus olhos, que agora também flamejam, instigando instigando instigando. Quem sabe alguém me socorra um dia. Ah! aqueles olhos...

A. Zhoras

[ desenvolvido pela agência do escritor ]