"Remorso" faz reviver o humor amargo das narrativas do paranaense Newton Sampaio.

 
 

O tempo certamente relega muitos escritores  à sombra. Ninguém mais se  lembra deles, do que escreveram. Quem por exemplo já ouviu falar ou  leu alguma coisa de Sylvio da Cunha? Há sobre  ele uma  crônica, escrita  por Drummond. Mas pouco, ou quase nada, se sabe sobre esse poeta pelo  qual Drummond tinha grande admiração. No Paraná, é o caso de  Newton  Sampaio.  Dalton Trevisan chegou a lhe dedicar  alguns linhas, bastante  elogiosas, num  dos números da revista "Joaquim". Sampaio teve vida  curta, nasceu em 1913 e  morreu em 1938. Seus livros saíram  postumamente, e Mário de Andrade  chegou  mesmo a fazer uma referência ao escritor paranaense, destacando o humor e a  "dicção natural" de seus escritos.  Ao contrário de Sylvio da Cunha, fotógrafo e poeta  fugidio, como dizia  Drummond -e que nem se preocupava em  aparecer em  público-, Sampaio teve  destino diferente e sempre se posicionou  como  escritor, publicando seus contos,  crônicas e novelas em jornais de  Curitiba  e até mesmo na carioca "Fon-Fon".  Uma parte desse material  foi reeditada  agora no livro "Remorso", organizado  por Luís Bueno e  publicado pela coleção  "Brasil Diferente", da Imprensa Oficial  do  Paraná.  Sampaio é um escritor ágil e refinado,  que merecia uma  reedição, porém é preciso ressaltar que não se trata de  nenhuma  redescoberta excepcional, de um autor que, relido à luz da  atualidade,  pudesse transformar alguma coisa -como foi,  por exemplo, o caso de Sousândrade,  resguardados alguns exageros de revelação. Mas a  literatura não é feita  só de grandes, de autores sensacionais.  Parece  que é preciso esses milhares de escritores,  mas que acabam sendo   esquecidos, para se forjar  um Dalton Trevisan, para  ficar num exemplo  próximo. Ou ainda basta lembrar Drummond: não começou  ele atraído pelo   penumbrismo do hoje esquecido Álvaro Moreyra?  Newton Sampaio, autor  também de  "Contos do Sertão Paranaense", tinha  uma percepção objetiva e  moderna da  narrativa, preocupado basicamente com  o relato direto dos  acontecimentos. Sua  linguagem era, de certa forma, alinhada  ao  modernismo, explorando a maneira  peculiar de falar o português no  Brasil, porém às vezes ainda se deixando levar  por algum volteio de  estilo bacharelesco.

ilustração [Osvalter Urbinati]

"Dona Gramática"

Num de seus contos publicados em "Remorso", "Noturno", de 1936, Sampaio, numa "nota prévia", justificava-se dos aparentes erros em seus contos: "Os erros de gramática que têm aparecido nos excertos anteriores ocorrem, em sua maioria, por minha conta. E, em sua minoria, do linotipista. Dos que correm por minha conta não me penitencio. Dona Gramática é uma senhora muito antipática e eu tenho prazer de destratá-la. Eu erro sem remorsos. Erro porque, muitas vezes, uma frase errada exprime, com precisão muito maior do que uma frase corretíssima, a emoção de tal ou qual personagem". O livro reúne a novela intitulada "Remorso" e ficções esparsas ou seriadas (como "Cria de Alugada", que contém vários contos em torno de um mesmo personagem). "Remorso" relata a história de um moço de família tradicional que acaba se apaixonando pela vizinha, uma filha de imigrantes poloneses.

Sua linguagem era, de certa forma, alinhada ao modernismo, explorando a maneira peculiar de falar o português no Brasil.

Mas o interessante, para além dos desencontros amorosos, é o contraste entre a vida de proprietário de Fernando Soares, para quem o trabalho é quase um passatempo charmoso (estudante de medicina que se inicia na profissão, mas acaba por se tornar um mal-humorado crítico de música em jornal), e a vida da jovem Sônia, que já levava o apelido, na roda de estudantes, de "polaca" (seria ela uma precursora da "Polaquinha" de Trevisan?). Ela aprende as artes do canto e se torna famosa. Avança na profissão consequentemente, ao passo que ele é a própria imobilidade refinada e diletante dos proprietários rurais. Porém a novela perde força diante dos contos, já que cai no estereótipo e no dramalhão (mas não sem algum humor). Assim sendo, o ponto alto dessa coletânea de Newton Sampaio são os contos, arte de que ele tinha pleno domínio.

Newton Sampaio

 Em "Simples Diálogo", de 1936, por exemplo, a forma narrativa está a serviço de uma conversa escrita quase a golpes de fala, representando uma aposta e, ao mesmo tempo, com muita perspicácia, um jogo amoroso inteligente e tensionado: "- Vai bater./ - Não bate./ - Vai, sim. / - Não vai./ - Aposto./ - Quanto quiser./ - Um cafezinho.../ - É pouco./ - Dois chopps./ - Sofro do fígado./ - Cinema?/ - Não gosto./ - Então proponha./ - Já propus quantas vezes./ - Isso que você quer é impossível" etc.    

Os contos de Sampaio, como se percebe da leitura de "Remorso", saltam do retrato cotidiano da vida urbana para o da vida rural, quando não trabalha com o jovem de interior que passa a viver nos subúrbios da grande cidade, como são as histórias de Damião, na bela sequência de contos que é "Cria de Alugado". Sampaio apresenta um tipo de humor bastante raro, "amargo", como notou Mário de Andrade. Pena, porém, que o escritor não tenha tido tempo de amadurecer seu estilo, morrendo aos 25 anos. O espólio literário desse autor revela uma personalidade atenta às relações brasileiras e que a soube retratar numa linguagem desataviada e extremamente viva.

Heitor Ferraz

poeta
autor de "Hoje como Ontem ao Meio-Dia" [ed. 7 Letras]
fonte [http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2107200209.htm]

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